Existem, grosso modo, duas correntes conflitantes no que diz respeito ao amor não correspondido. Há os lógicos, inteligentes e espiritualmente preparados para desilusões amorosas que acreditam na cura pela distância e no forçar-se a esquecer alguém como requisito para abrir o peito ao (novo) que virá. E há eu: irracional, ignorante e entregue sob o corpo dono de um coração virgem que não se esquece.
Talvez por piscar aqui dentro, meus olhos não boquiabrem-se. Mas, invariavelmente, outros olhos arregalam-se quando conto como vivo: apaixonado por lábios que dizem meu nome, mãos que me abraçam e um coração que me ama sem desejar. Sim, amo-a incondicional e imaturamente e, como que para não esquecer, faço questão de admirá-la todo dia. Toda hora.
Interromperia a consciência: “quão mal te faz ser relembrado diariamente de que seu amor é pouco? De que lhe sobra azar na vida?”. Vivo, sinto e respondo: pouco. Mas essas não são as perguntas certas – apesar de serem as mais frequentemente atiradas sem remorso contra mim. Se me vir, pergunte-me: “quão bem te faz ter o privilégio de estar na companhia de quem você mais ama? Quão bem te faz restar essa sorte?”. Vivo, sinto e respondo: muito.
Sinceramente? É uma conta matemática. Por ser incapaz na matéria em questão, talvez eu calcule errado, mas quem vai me convencer de que multiplicar meu amor me diminui? Por quantas vezes a vir, tantas vezes irei amá-la. Por quantas vezes a perder de vista, tantas vezes irei lembra-la. Simples assim, funciona para mim. Não posso dizer que serve para todos pois amores e peitos mudam e desnudam nossas vergonhas e sentimentos. Convém para mim e convém por ela.
Não quero ser dramático, apesar de sempre querer ser romântico. Tenho nesse estilo de vida regado de poesias e flores um certo orgulho démodé. Entretanto, veja: há coerência em amar e evitar? Desconheço o nexo de todas as outras relações do mundo, mas garanto-lhes que com ela não há. Possivelmente eu subentenda outros amores. Como vocês conseguem amar intensamente alguém e depois conformar-se em afastar-se? Que catarse! O desejo não recíproco é motivo suficiente para separar-lhe da pessoa que rouba seu sono à noite e seus sorrisos ao dia? Regra número 1 do amor: ele é involuntário; notem e anotem. Porquanto, seja você voluntário ou não na paixão, rege o descontrole e, assim, a imprevisibilidade. Não é justo descontar os bruscos do coração na ausência imposta de quem te importa.
Então, decidi esperar a vida decidir. Que me entregue outro amor, mas que não me renegue esse. Recuso a enxergar crime nisso e uso qualquer coisa que rime conosco para me botar nesse enrosco que, confesso, me recheia. Pois, já disse antes e repito aos que quiserem acreditar: na vida, há de amar e ser amado. A parte que depende de mim está sendo intensa e literalmente escrita. Da outra metade não tenho sequer pista.
Concluo: o que estou fazendo de errado ao preferir viver ao lado de quem eu amo? Sofro como qualquer amor cobraria. Mas recalco-me nos privilégios. Afinal, essa paixão não exige nada além de textos e pretextos para me declarar. Vale a pena. Essa mesma que, arisca, risca e se arrisca a resumi-la entre pontos. Equivalem os ciúmes aos sorrisos. O que é compassível rapidamente se faz invisível pela presença dela. É tão especial quanto natural.
Portanto, se quiser um alerta, pondere: quem se apaixona por alguém que nunca mais quer ver na vida? Se quiser um conselho, digo-lhe que há mais razão em praticar o amor do que em desamar. E se quiser a verdade, saiba que, racionalmente, eu não paro para pensar.