terça-feira, 17 de janeiro de 2012

De envelhecer

De envelhecer traz serenidade. Senilidade e conformidade com a saudade. Conforme passo, traço outros (p)rumos. O que antes me valorizava, hoje não me acorda. O que me recordo, agora revigora. Mas objetos, objetivos e objeções caducaram. Empoeiraram na estante e no instante em que nasceu em mim um novo tino. Repentino como um impulso, trocou-me por completo: meus delírios e meus martírios.

Molham-me as lágrimas da maturidade: mais esguias, pesadas e atrevidas. Mais salgadas, também, no tempero da vida. Correm por mim sem que eu corra delas. Encharcam um rosto que, posto o desgosto, aprendeu a estar disposto para alguma tristeza. Afinal, sorrir e ruir são os extremos do cíclico existir. São ir – regredir ou ressurgir.

Enfadam-me duas décadas e meia de niilismo. Da incredulidade que me fez intocável, entocado. Desperto (e como que de longe), vejo-me apostando alto no ineditismo da fatalidade e no que minha idade me entrega.

Pensar é senil, amar pueril. Por isso, me apego no amor para não enrugar. Que ele me cure dos vazios e me acerte em cheio. Por uma vida vil e uma morte sutil.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

De intermitências

Acontece que temos da vida uma ideia retilínea. Com a consciência de que apenas berço e túmulo são leitos certos, pendemos para um resumo temporal da existência. Como que nos abreviando entre nascer e morrer, comportamos tudo em um suposto tempo. E só nele.

Por vício ou desperdício de vida, mensuramos tudo. O resquício disso é um indício de que nos limitamos: até ontem conhecíamos, amanhã amaremos e depois esqueceremos. O ofício de sentir é imponderável e, portanto, incômodo numa linha temporal. O tempo nos atrasa.

O que sentimos – tal qual a vida - varia. Flutua e insinua distintas direções. Desperta e acalenta emoções arrebanhadas pelo susto ou pelo suspiro. Resta-nos abreviar a vida. Subvertendo-nos a uma noção fixa do amor. Ignorando o torpor; o vai-e-vem do ardor. Disso, calcamos uma fronteira racional demais entre o amar e o não amar e nos propomos a ponderar quando cruzá-la: no começo ou no desfecho.

Expatriado, nem de lá e nem de cá, o coração quase sempre ressente. Pressente o erro imprudente. Entende que o amor é intermitente, indiferente ao presente ou ao que vem pela frente. Amo agora, odeio agora, detestei ontem e venerarei amanhã. Sentimos com a mesma velocidade e volatilidade com que existimos. Apaixonar-se é desequilibrar-se na fronteira entre amar e odiar ao sabor do momento.  

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

De co(r)ação

Trago à tona Rochefoucauld para rabiscar a influência do suposto amor que vemos fluir - literalmente voluptuoso - por todo lado. Em quanto somos levados a amar pelo ambiente em que vivemos? O nosso redor pode nos moldar (ou incomodar)?

Talvez pessimista; quiçá otimista. Não sei bem o tom com que seus olhos lerão o que segue. Mas me ative à ideia de que há pessoas que jamais teriam se apaixonado se nunca tivessem ouvido falar do amor. Ancoro-me nas extenuantes formas de amor diário às quais estamos, inevitavelmente, expostos. Compostos, mas nem sempre dispostos a vê-las, absorvemo-las. Há tanto amor assim no mundo?

Nos versos das poesias, nos refrãos das músicas, nas páginas dos livros e das revistas. Há amor declarado por todo lado e...ei! eu também quero amar! Recalcado que sou, escrevo aqui e ali, ouço, penso, vejo, leio e floreio. Mas quanto disso eu sinto e quanto eu minto? Há mais amor do que verdade no mundo.

Não me entenda mal; ou não me entenda, afinal. Intento pouco macular a imagem do amor, pouco inflamar os apaixonados. Entendo quase nada da vida, mas não me convence esse sentir gêmeo, onde todo mundo diz, sofre e vive igual. Parece que há imperativos para amar hoje em dia, um padrão para ser amante. A coação do coração.

Logo o apaixonado tão impensante e, por conseguinte, tão imprevisível moldado sob costumes alheios! Sob anseios tão parelhos! Apertam-nos (há quem culpe o capitalismo) para sermos amáveis, felizes e plenos como se essas fossem vontades unânimes. Ou como se fossem tangíveis, cabíveis, fazíveis. São invisíveis, porém falíveis. Não servem para mim e não me sirvo delas. Quero meu amor fortuito, desusado e oblíquo como a própria vida. A paixão rara – como ela – me cobiça.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Da beleza e de graça

Eu a amo porque ela é linda ou ela é linda porque eu a amo? Há quem diga que o coração é cego ou, como já diria o outro, pior: simplesmente não quer ver. Como explicar, então, que nosso amor resolva cismar naquele cúmplice par de olhos ou naquela pintinha delicada que quase lhe toca os lábios?

Parece impossível dissociar o sentimento dos nossos sentidos – na etimologia das palavras e na filosofia do amor. Ainda mais quando há quem acredite que o amor é, na verdade, o ensejo de um desejo por beleza. Mas como pode haver lógica em algo tão subjetivo quanto a aparência?

Há pouca, brada minha razão rouca. Pois há espaço para imaginar a perfeição.  Não cunhei, mas uso: “a beleza está nos olhos de quem vê”. E aprimoro: a beleza está nos olhos de quem vê e na mente de quem ama. Pois animamos rostos, sorrisos, gestos e jeitos com o amor;  com a alma que só os apaixonados enxergam transparecer em cada trejeito bem feito.

Considero existir a beleza clássica, matemática de Platão, que limita a formosura – e a graça – na rasura de uma figura: essas estão nas capas de revistas. A sua paixão, aquela verdadeira e cotidiana, certamente tem a beleza da promessa: um encanto que te apaixona pelo que tais formas te antecipam daquela alma, daquele coração.

Ou seja, a beleza óbvia me atrai, mas não me apaixona. Quero me apegar aos detalhes, às finas imperfeições do corpo que comprovam o amor. Até porque, nessa relação de ter que observar e imaginar sua beleza todos os dias, eu me torno indispensável para ela. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Do ser amado

Pode haver quem ache que o amor não correspondido é um peso. Talvez seja um pouco pesar, penar pra acreditar. Mas há cruzes maiores entre o cupido e o coração.

Quando duas pessoas se apaixonam, dividem amores, confissões, carícias e a responsabilidade pelos sentimentos alheios. No amante que não recebe amor em troca, há leveza no tal estado apaixonado. Não recai sobre ele fardo algum. Ele só ama e, com isso, só pode machucar a si mesmo. Vive de sentimento (e pensamentos) a esmo.

O papel de amado, entretanto, é, constantemente, subjugado. O desejo de ser admirado suplanta e embaça a realidade, que é densa e propensa a inevitabilidade. O amor forçado é tão indigesto quanto o renegado.  É um exercício marxista ao passo que passamos o passado nos arrependendo de não ser amado e o presente tratando de ser ausente. Queremos tanto querer que quando o amor nos flecha, arrefecemos a obsessão. E pensamos imediatamente: “como alguém tão perfeito se apaixonou por mim?”.

Por isso, é preciso estar convicto e completamente apaixonado por si mesmo antes de despertar amor nos outros. É mister estarmos seguros. Pois nos apaixonamos por um reflexo do que buscamos em nós mesmos. Amamos e admiramos o que não temos. Como tudo no universo, buscamos equilíbrio: o nosso vazio combina com a plenitude da pessoa amada. Se não há convicção do que representamos em uma relação, nos inclinamos para a fuga e sugerimos lamento de outrem. E, assim, sob o dolo do anseio alheio, somos amados, sem saber, sem querer e sem poder esmorecer uma dor que não nos pertence.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Das correntes do (des)amor

Existem, grosso modo, duas correntes conflitantes no que diz respeito ao amor não correspondido. Há os lógicos, inteligentes e espiritualmente preparados para desilusões amorosas que acreditam na cura pela distância e no forçar-se a esquecer alguém como requisito para abrir o peito ao (novo) que virá. E há eu: irracional, ignorante e entregue sob o corpo dono de um coração virgem que não se esquece.

Talvez por piscar aqui dentro, meus olhos não boquiabrem-se. Mas, invariavelmente, outros olhos arregalam-se quando conto como vivo: apaixonado por lábios que dizem meu nome,  mãos que me abraçam e um coração que me ama sem desejar. Sim, amo-a incondicional e imaturamente e, como que para não esquecer, faço questão de admirá-la todo dia. Toda hora.

Interromperia a consciência: “quão mal te faz ser relembrado diariamente de que seu amor é pouco? De que lhe sobra azar na vida?”. Vivo, sinto e respondo: pouco. Mas essas não são as perguntas certas – apesar de serem as mais frequentemente atiradas sem remorso contra mim. Se me vir, pergunte-me: “quão bem te faz ter o privilégio de estar na companhia de quem você mais ama? Quão bem te faz restar essa sorte?”. Vivo, sinto e respondo: muito.

Sinceramente? É uma conta matemática. Por ser incapaz na matéria em questão, talvez eu calcule errado, mas quem vai me convencer de que multiplicar meu amor me diminui? Por quantas vezes a vir, tantas vezes irei amá-la. Por quantas vezes a perder de vista, tantas vezes irei lembra-la. Simples assim, funciona para mim. Não posso dizer que serve para todos pois amores e peitos mudam e desnudam nossas vergonhas e sentimentos. Convém para mim e convém por ela.

Não quero ser dramático, apesar de sempre querer ser romântico. Tenho nesse estilo de vida regado de poesias e flores um certo orgulho démodé. Entretanto, veja: há coerência em amar e evitar? Desconheço o nexo de todas as outras relações do mundo, mas garanto-lhes que com ela não há. Possivelmente eu subentenda outros amores. Como vocês conseguem amar intensamente alguém e depois conformar-se em afastar-se? Que catarse! O desejo não recíproco é motivo suficiente para separar-lhe da pessoa que rouba seu sono à noite e seus sorrisos ao dia? Regra número 1 do amor: ele é involuntário; notem e anotem. Porquanto, seja você voluntário ou não na paixão, rege o descontrole e, assim, a imprevisibilidade. Não é justo descontar os bruscos do coração na ausência imposta de quem te importa.

Então, decidi esperar a vida decidir. Que me entregue outro amor, mas que não me renegue esse. Recuso a enxergar crime nisso e uso qualquer coisa que rime conosco para me botar nesse enrosco que, confesso, me recheia. Pois, já disse antes e repito aos que quiserem acreditar: na vida, há de amar e ser amado. A parte que depende de mim está sendo intensa e literalmente escrita. Da outra metade não tenho sequer pista.

Concluo: o que estou fazendo de errado ao preferir viver ao lado de quem eu amo? Sofro como qualquer amor cobraria. Mas recalco-me nos privilégios. Afinal, essa paixão não exige nada além de textos e pretextos para me declarar. Vale a pena. Essa mesma que, arisca, risca e se arrisca a resumi-la entre pontos. Equivalem os ciúmes aos sorrisos. O que é compassível rapidamente se faz invisível pela presença dela. É tão especial quanto natural.

Portanto, se quiser um alerta, pondere: quem se apaixona por alguém que nunca mais quer ver na vida? Se quiser um conselho, digo-lhe que há mais razão em praticar o amor do que em desamar. E se quiser a verdade, saiba que, racionalmente, eu não paro para pensar. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Da f(r)ase

A felicidade é o exercício errado do empirismo. Aprendi na prática. Ser feliz nada mais é do que supor; pôr e tirar a realidade conforme convém. A literatura é partidária e parceira desse enrosco tosco que une, inseparáveis, amor e sorriso.

Basta uma frase e, para uma alma literária como a minha, o engodo está feito. É um grito na catarse de uma suposta calmaria que me arremessa do amor à depressão na pausa de uma vírgula. E vice-versa. É uma fase em cujo escuro vejo sombras. Uma frase.

Quando vivemos assim, nos resta pouco. Minha história toda se escreveu sozinha enquanto eu pensava em frases para conquista-la. Enquanto eu a revivia pra reaprender a amar. E entre todos os dias em que eu não quis vê-la com medo do amanhã.

Sim, pois quando queremos demais uma pessoa, é como não querer vê-la. Desejamos tanto tê-la por perto que a mantemos longe para não perder o desejo. Para não parar o cortejo.
Mas nada do que eu diga vive mais do que um beijo. Nada do que escrevo sobrevive aos seus ensejos. Vejo-a com olhos imperativos, como quem só vê a verdade. De que ela sim é diferente! Ela é, sim, envolvente.

Numa foto eu te mostro a vida. E dela te guardo em fotos. Eternas, separadas pelos segundos, pelos suspiros. E pelo pensamento liso, seco, estreito e reto. Direto pra você. Correto ou incorreto: afeto.