segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Da beleza e de graça

Eu a amo porque ela é linda ou ela é linda porque eu a amo? Há quem diga que o coração é cego ou, como já diria o outro, pior: simplesmente não quer ver. Como explicar, então, que nosso amor resolva cismar naquele cúmplice par de olhos ou naquela pintinha delicada que quase lhe toca os lábios?

Parece impossível dissociar o sentimento dos nossos sentidos – na etimologia das palavras e na filosofia do amor. Ainda mais quando há quem acredite que o amor é, na verdade, o ensejo de um desejo por beleza. Mas como pode haver lógica em algo tão subjetivo quanto a aparência?

Há pouca, brada minha razão rouca. Pois há espaço para imaginar a perfeição.  Não cunhei, mas uso: “a beleza está nos olhos de quem vê”. E aprimoro: a beleza está nos olhos de quem vê e na mente de quem ama. Pois animamos rostos, sorrisos, gestos e jeitos com o amor;  com a alma que só os apaixonados enxergam transparecer em cada trejeito bem feito.

Considero existir a beleza clássica, matemática de Platão, que limita a formosura – e a graça – na rasura de uma figura: essas estão nas capas de revistas. A sua paixão, aquela verdadeira e cotidiana, certamente tem a beleza da promessa: um encanto que te apaixona pelo que tais formas te antecipam daquela alma, daquele coração.

Ou seja, a beleza óbvia me atrai, mas não me apaixona. Quero me apegar aos detalhes, às finas imperfeições do corpo que comprovam o amor. Até porque, nessa relação de ter que observar e imaginar sua beleza todos os dias, eu me torno indispensável para ela. 

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