Pode haver quem ache que o amor não correspondido é um peso. Talvez seja um pouco pesar, penar pra acreditar. Mas há cruzes maiores entre o cupido e o coração.
Quando duas pessoas se apaixonam, dividem amores, confissões, carícias e a responsabilidade pelos sentimentos alheios. No amante que não recebe amor em troca, há leveza no tal estado apaixonado. Não recai sobre ele fardo algum. Ele só ama e, com isso, só pode machucar a si mesmo. Vive de sentimento (e pensamentos) a esmo.
O papel de amado, entretanto, é, constantemente, subjugado. O desejo de ser admirado suplanta e embaça a realidade, que é densa e propensa a inevitabilidade. O amor forçado é tão indigesto quanto o renegado. É um exercício marxista ao passo que passamos o passado nos arrependendo de não ser amado e o presente tratando de ser ausente. Queremos tanto querer que quando o amor nos flecha, arrefecemos a obsessão. E pensamos imediatamente: “como alguém tão perfeito se apaixonou por mim?”.
Por isso, é preciso estar convicto e completamente apaixonado por si mesmo antes de despertar amor nos outros. É mister estarmos seguros. Pois nos apaixonamos por um reflexo do que buscamos em nós mesmos. Amamos e admiramos o que não temos. Como tudo no universo, buscamos equilíbrio: o nosso vazio combina com a plenitude da pessoa amada. Se não há convicção do que representamos em uma relação, nos inclinamos para a fuga e sugerimos lamento de outrem. E, assim, sob o dolo do anseio alheio, somos amados, sem saber, sem querer e sem poder esmorecer uma dor que não nos pertence.
1 comentários:
Já estou cansado de elogiar à exaustão seus textos - que continuam melhorando.
Então, pra variar um pouco, vou começar a falar mal deles.
Ficou fraco hein. Esperava mais.
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